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Entrevista

Comunicação antirracista: educar, ouvir e transformar pela palavra

Publicado em 10 de maio de 2026ComuEduca
A professora e comunicadora Ohana Luize.

A professora e comunicadora Ohana Luize.

Foto: Ohana Luize / Acervo Pessoal

Em uma sociedade marcada historicamente pelo racismo estrutural, a comunicação tem um papel decisivo na construção de narrativas, representações e formas de convivência. Mais do que informar, comunicar também significa disputar sentidos, questionar desigualdades e transformar realidades. É nesse contexto que ganha força a comunicação antirracista, prática que busca combater o racismo por meio da linguagem, da escuta e da valorização das vozes negras.

Mestra em Comunicação pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Piauí (PPGCOM/UFPI), a jornalista e pesquisadora Ohana Luize destaca que a comunicação antirracista vai além da teoria acadêmica. Trata-se de uma prática cotidiana e política, voltada para a construção de uma sociedade menos marcada pela exclusão racial, já que o antirracismo exige posicionamento.

Comunicação como prática de transformação

Segundo Ohana, a comunicação antirracista é uma prática questionadora, que busca analisar criticamente discursos, imagens, narrativas e relações de poder que reforçam desigualdades raciais. Na prática, isso significa refletir sobre aquilo que se comunica, as histórias que ganham espaço e os grupos sociais que são constantemente silenciados. Em um cenário marcado pelas redes sociais digitais e pela circulação acelerada de conteúdos digitais, a responsabilidade dos comunicadores se torna ainda maior.

Para Ohana, a comunicação antirracista também atua no enfrentamento das violências simbólicas presentes no cotidiano e amplia as possibilidades de representação da população negra nos meios de comunicação.

Uma das características do racismo no Brasil é sua presença em comportamentos considerados “normais”. Comentários, piadas e expressões aparentemente inofensivas podem carregar preconceitos históricos e reforçar estereótipos.

A pesquisadora explica que essas práticas foram naturalizadas ao longo do tempo, mas seus efeitos continuam produzindo exclusão e violência. Ela cita o filósofo Michel Foucault para lembrar que onde existe poder também existe resistência. Nesse sentido, movimentos sociais, pesquisadores e comunicadores têm contribuído para denunciar essas formas sutis de racismo e conscientizar a população.

“A comunicação antirracista também é educativa. Ela chama atenção para os comportamentos cotidianos e para aquilo que muitas vezes foi tratado como normal”, ressalta.

Ohana palestra no evento Favela F5. Foto: Acervo Pessoal / Ohana Luize.

A linguagem nunca é neutra

Outro ponto central destacado por Ohana é o papel da linguagem na manutenção das desigualdades raciais. Segundo ela, palavras, imagens e discursos carregam valores culturais e históricos.

No jornalismo e na comunicação, isso significa questionar como as pessoas negras são representadas nas narrativas midiáticas. Durante muito tempo, essas representações estiveram associadas a lugares de inferioridade, violência ou exclusão.

Para a pesquisadora, a comunicação antirracista rompe com a ideia de neutralidade absoluta da linguagem e propõe uma revisão crítica das estruturas discursivas. “É preciso questionar por que pessoas negras aparecem sempre associadas aos mesmos lugares e construir outras formas de comunicação”, explica.

A escuta ativa aparece como um dos pilares da comunicação antirracista. Para Ohana, não basta falar sobre racismo sem colocar pessoas negras no centro do debate. Isso envolve criar espaços de fala, acolher experiências e romper com o silenciamento histórico. Mais do que fontes de entrevistas, pessoas negras devem ocupar posições de protagonismo na produção de conteúdo, no jornalismo e na educação.

A pesquisadora destaca ainda que a comunicação antirracista não deve focar apenas na dor, mas também nas potencialidades, histórias e conquistas da população negra.

Ao comentar sobre situações de racismo em ambientes familiares, escolares ou profissionais, Ohana afirma que o silêncio diante da discriminação também transmite uma mensagem. Segundo ela, omitir-se diante de uma fala racista pode funcionar como consentimento. Por isso, a postura antirracista exige ação e posicionamento responsável. “Hoje temos argumentos e informações suficientes para nomear o problema. Isso é racismo. Isso é violência”, afirma. Ela ressalta, no entanto, que a reação deve considerar o contexto e buscar uma abordagem pedagógica, sem deixar de interromper a naturalização da violência.

Redes sociais digitais: espaço de disputa e resistência

As redes sociais também são vistas como espaços importantes na luta antirracista. Embora possam reproduzir discursos de ódio e violência, elas também ampliam a visibilidade de comunicadores negros, movimentos sociais e iniciativas independentes.

Segundo Ohana, a internet permitiu o fortalecimento do jornalismo independente e abriu espaço para produções que antes eram invisibilizadas. Nesse cenário, produzir conteúdo educativo, denunciar desigualdades e ampliar a representatividade negra tornam-se estratégias fundamentais de resistência.

Como docente, Ohana defende que educadores têm papel essencial na construção de uma sociedade antirracista. Ela acredita que práticas pedagógicas devem incluir autores negros, metodologias inclusivas e espaços de diálogo acolhedores. Além disso, o debate sobre racismo não pode ficar restrito a datas comemorativas.

“É preciso tratar a educação antirracista como prática contínua, não como pauta pontual”, afirma. A docente também destaca a importância de criar ambientes seguros para que estudantes compartilhem experiências pessoais e desenvolvam pensamento crítico, já que crianças e adolescentes podem aprender desde cedo formas de comunicação mais respeitosas e antirracistas.

Para isso, é fundamental investir em representatividade, diversidade e convivência baseada no respeito às diferenças. Segundo ela, quando crianças negras veem pessoas parecidas com elas ocupando espaços de destaque, isso fortalece a autoestima, o pertencimento e o reconhecimento social.

Referências para estudar comunicação antirracista

Entre as referências indicadas pela pesquisadora estão obras de Djamila Ribeiro, especialmente os livros da coleção Feminismos Plurais, além do Pequeno Manual Antirracista.

Ela também destaca o trabalho do Instituto Odara, do veículo Alma Preta Jornalismo, do Notícia Preta e do coletivo Nós, Mulheres da Periferia. Entre os podcasts recomendados estão Mano a Mano, apresentado por Mano Brown, além de História Preta e Afetos Podcast.

Ohana palestra sobre mulheres negras.  Foto: Acervo Pessoal / Ohana Luize

No Piauí, ela cita iniciativas como o Ocorre Diário e o site Negrê como exemplos importantes de comunicação comprometida com pautas antirracistas.

Para quem deseja começar a praticar uma comunicação antirracista no cotidiano, Ohana resume o caminho em três atitudes principais: ouvir mais pessoas negras, observar criticamente comportamentos naturalizados e não se omitir diante do racismo.

Segundo ela, o combate à discriminação racial passa necessariamente pela forma como a sociedade comunica, educa e constrói narrativas.

“Não dá mais para silenciar. A comunicação antirracista existe justamente para interromper esses silêncios”

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