Em um mundo cada vez mais conectado, o acesso à internet passou a ser considerado essencial para estudar, trabalhar, se informar e participar da vida social. No entanto, milhões de brasileiros ainda enfrentam obstáculos para acessar tecnologias digitais de forma plena e crítica. A exclusão digital, que envolve não apenas a falta de internet, mas também a ausência de letramento midiático e estrutura educacional, continua sendo um desafio especialmente em regiões periféricas e interioranas do país.
A pesquisadora e doutora em Comunicação Marta Alencar é idealizadora da COAR Notícias (@coarnoticia), um projeto independente que trabalha com checagem de fatos e o combate a fake news. Ela também estuda Comunicação, letramento midiático e desertos de notícias. Segundo ela, a exclusão digital vai muito além da falta de conexão. Questões geográficas, econômicas e educacionais se entrelaçam e dificultam o acesso à informação de qualidade.
Desigualdade digital no interior do Brasil
Marta destaca que muitas comunidades quilombolas, indígenas e rurais ainda convivem com a ausência de internet e até mesmo de energia elétrica. Em diversos povoados do Nordeste brasileiro, por exemplo, famílias precisam lidar diariamente com a precariedade da infraestrutura tecnológica.
Além disso, escolas de cidades pequenas frequentemente possuem laboratórios sem funcionamento adequado, computadores insuficientes ou falta de conexão com a internet. “Isso também é uma forma de exclusão digital”, afirma a pesquisadora. Para ela, a ausência de investimentos públicos em educação tecnológica contribui para ampliar desigualdades sociais já existentes.
Apesar da expansão do acesso aos celulares e às redes sociais digitais, Marta reforça que conexão não é sinônimo de informação de qualidade. Segundo ela, muitas pessoas recebem conteúdos diariamente pelo WhatsApp ou pelas redes sociais digitais sem compreender completamente o que estão consumindo. “Ter internet não significa ter conexão”, diz ela.
Nesse contexto, o letramento midiático torna-se fundamental. Mais do que saber utilizar um aparelho celular, é necessário desenvolver senso crítico para interpretar, verificar e questionar as informações recebidas.
Inspirada nas ideias do educador Paulo Freire, Marta defende uma educação que valorize a realidade das comunidades e ajude as pessoas a compreenderem os meios de comunicação que consomem. “As pessoas precisam entender por que acessam determinadas plataformas e quais informações estão recebendo”, explica.
Durante sua pesquisa em comunidades rurais de São Pedro do Piauí e Itaueira, Marta observou que muitos moradores dependiam de um único ponto de acesso à internet localizado em escolas da comunidade. Em alguns casos, os próprios moradores se organizaram para instalar conexão via fibra óptica. Mesmo assim, o acesso continuava limitado. Muitas famílias não possuíam internet em casa, e a precariedade da infraestrutura escolar dificultava o uso das tecnologias digitais de forma contínua.
Marta e o cordelista Eudes Sousa. Foto: Acervo Pessoal / Marta Alencar
Segundo a pesquisadora, essa realidade deixa as populações mais vulneráveis à desinformação e aos impactos da corrupção e da ausência de políticas públicas eficientes, tornando-os suscetíveis a virarem “desertos de notícias”.
O que são “desertos de notícias”?
Outro conceito abordado por Marta é o de “desertos de notícias”, criado pela pesquisadora norte-americana Penelope Muse Abernathy. O termo se refere a localidades que possuem pouca ou nenhuma cobertura jornalística local.
Nesses lugares, a população muitas vezes depende exclusivamente de grupos de WhatsApp, páginas de humor nas redes sociais digitais ou comunicados institucionais para se informar. Isso aumenta a vulnerabilidade informacional e dificulta o acesso a notícias verificadas.
Segundo Marta, mesmo em cidades classificadas como desertos de notícias, as pessoas continuam trocando informações. O problema é que nem sempre possuem ferramentas para distinguir conteúdos confiáveis de desinformação.
Em muitas pequenas cidades, as redes sociais digitais se tornaram a principal fonte de informação. Entretanto, a ausência de leitura crítica da mídia pode facilitar a circulação de boatos, fake news e conteúdos manipulados.
Marta cita o caso de uma página de humor em São Pedro do Piauí que, apesar de não ter caráter jornalístico, era vista pela população como principal fonte informativa da cidade. “As pessoas ficam extremamente vulneráveis quando não existe orientação sobre como checar informações”, alerta.
O avanço da Inteligência Artificial (IA) e a proximidade de períodos eleitorais tornam o cenário ainda mais preocupante, já que conteúdos falsos podem circular com mais facilidade e aparência de veracidade, devido à alta propagação com os smartphones.
Celular não é sinônimo de letramento midiático
Para Marta, o letramento midiático envolve a compreensão das seguintes habilidades: - distinguir fontes confiáveis; - reconhecer a desinformação; e saber como verificar notícias. Tratam-se de habilidades ligadas à cidadania e à participação social. Ela diz que simplesmente saber usar um celular é diferente, por exemplo, de um verdadeiro letramento midiático. Como exemplo, Marta cita o caso de um morador da Zona Rural que utilizava o aparelho apenas para enviar áudios, pois não sabia ler, mas que, por isso teria dificuldades de entender criticamente as informações.
Ela também destaca a importância do documento da UNESCO sobre alfabetização midiática e informacional, publicado em 2011, que propõe estratégias para preparar professores e alunos para lidar criticamente com as mídias digitais. Assim, a escola aparece como um espaço essencial no combate à desinformação. Segundo Marta, professores e instituições de ensino têm papel decisivo na construção do pensamento crítico dos estudantes.
Marta ressalta que fake news e desinformação também circulam dentro do ambiente escolar, muitas vezes causando conflitos, cancelamentos e impactos emocionais graves entre os alunos. Por isso, ensinar práticas de checagem e estimular o diálogo são atitudes fundamentais para reduzir a propagação de informações falsas.
Cordel, linguagem regional e educação midiática
Uma das estratégias defendidas por Marta é o uso de linguagens populares e regionais no processo educativo. Em seus projetos, ela utiliza cordéis em áudio, texto e formato digital para aproximar o letramento midiático das comunidades.
Segundo a pesquisadora, quando a informação é apresentada em uma linguagem próxima da realidade das pessoas, o aprendizado se torna mais acessível e eficiente, e algumas atitudes simples podem ajudar a reduzir a propagação da desinformação, tais como:
● Pesquisar antes de compartilhar;
● Verificar a origem da informação;
● Buscar fontes confiáveis;
● Desconfiar de conteúdos alarmistas ou “bons demais para serem verdade”;
● Conversar com pessoas de confiança;
● Consultar veículos jornalísticos reconhecidos.
Ela também alerta para golpes digitais e ligações suspeitas que solicitam dados pessoais, prática cada vez mais comum em ambientes online.
Foto: Acervo Pessoal / Marta Alencar
Informação de qualidade como direito social
A discussão sobre exclusão digital vai além do acesso à tecnologia. Ela envolve cidadania, educação e participação democrática. Sem acesso à informação de qualidade e sem ferramentas para interpretar criticamente os conteúdos digitais, milhões de brasileiros continuam vulneráveis à manipulação e à desinformação.
Nesse cenário, iniciativas de letramento midiático, educação digital e fortalecimento do jornalismo local surgem como caminhos fundamentais para construir uma sociedade mais informada e crítica.
Acesse o Manual de Checagem em Cordel aqui.




