Em tempos de excesso de informação, redes sociais aceleradas e circulação constante de notícias, a comunicação popular tem se tornado uma ferramenta essencial para fortalecer comunidades, ampliar direitos e aproximar pessoas de debates importantes sobre cidadania, cultura e justiça social. Mais do que informar, ela busca transformar realidades por meio da escuta, do diálogo e da participação coletiva.
Para entender como o jornalismo pode contribuir com esse processo, conversamos com Luan Matheus Santana, cofundador da Ocorre Diário, iniciativa voltada para comunicação comunitária e defesa dos direitos humanos no Piauí.
Segundo Luan, o jornalismo comunitário não deve ser visto como uma prática que “ensina” as comunidades a se comunicarem, mas sim como uma ferramenta que fortalece saberes já existentes dentro dos territórios. “O jornalismo não ensina os territórios. Ele agrega aos saberes que as comunidades já possuem”, destaca.
Diferente da comunicação tradicional, muitas vezes focada apenas em grandes acontecimentos, a comunicação popular volta seu olhar para o cotidiano das pessoas, especialmente das comunidades periféricas, rurais e vulnerabilizadas. Ela busca dar visibilidade a temas que frequentemente ficam fora dos grandes meios de comunicação, como problemas de moradia, falta de acesso a direitos básicos, violência, questões ambientais e iniciativas culturais locais.
Para Luan, comunicar vai muito além de transmitir informação. “A comunicação só se torna efetiva quando gera sentido e provoca transformação”, afirma. Isso significa que uma reportagem, vídeo, podcast ou publicação só cumpre seu papel quando consegue dialogar verdadeiramente com quem recebe aquela mensagem.
Linguagem acessível aproxima as pessoas
Um dos principais desafios do jornalismo popular é tornar a linguagem mais acessível sem perder profundidade. Muitas vezes, termos técnicos ou textos excessivamente complexos acabam afastando parte do público. “Tornar a comunicação acessível é ampliar o alcance do jornalismo e permitir que mais pessoas participem das discussões”, explica.
Na prática, isso envolve:
evitar palavras excessivamente técnicas;
usar exemplos do cotidiano;
aproximar o conteúdo da realidade da comunidade;
utilizar diferentes formatos, como vídeos curtos, podcasts, murais, rádios comunitárias e redes sociais.
Outro ponto destacado por Luan é a importância da escuta ativa no jornalismo comunitário. Para ele, muitos profissionais aprendem a escrever e entrevistar, mas pouco aprendem a realmente escutar as pessoas. A escuta ativa vai além de ouvir respostas. Ela envolve atenção ao ambiente, aos sentimentos, à linguagem corporal e às experiências vividas pelas pessoas entrevistadas.
“Mais importante do que saber falar é saber escutar”
Essa prática ajuda a construir narrativas mais humanas, profundas e respeitosas, especialmente quando o assunto envolve situações de vulnerabilidade social, já que a comunicação popular também ajuda a conectar problemas vividos por diferentes comunidades. Questões como falta de moradia, violência urbana, dificuldades de acesso à água, desigualdade social e ameaças ambientais não acontecem apenas em um bairro ou cidade, elas se repetem em diferentes lugares do país.
Luan cita como exemplo comunidades periféricas de Teresina que enfrentam ameaças de remoção e que compartilham desafios semelhantes aos de comunidades em outras regiões do Brasil.
Redes sociais podem fortalecer mobilizações
Embora muitas plataformas digitais tenham sido criadas com objetivos comerciais, movimentos comunitários têm se apropriado dessas ferramentas para ampliar suas vozes. Segundo Luan, o mais importante não é o formato em si, mas como ele é usado pela comunidade. “Cada território encontra sua própria forma de se comunicar”, explica.
Para quem deseja iniciar uma iniciativa de comunicação popular, Luan afirma que o primeiro passo é fortalecer vínculos com a própria comunidade. A comunicação comunitária nasce da coletividade e da participação das pessoas que vivem naquele território.
O jornalista também alerta para a necessidade de responsabilidade ao comunicar situações delicadas. Em casos de violência, conflitos ou vulnerabilidade social, é importante evitar a exposição desnecessária das pessoas envolvidas.
Segundo ele, um dos maiores erros é “revitimizar” quem já vive situações difíceis. Isso significa que jornalistas e comunicadores precisam ter cuidado ao divulgar imagens, nomes ou informações que possam colocar alguém em risco.
Além de informar, a comunicação popular fortalece o senso crítico e o exercício da cidadania. Ela ajuda as pessoas a compreenderem seus direitos, identificarem desinformação e participarem mais ativamente da sociedade.
Para ele, o direito à comunicação é um direito humano fundamental, mas ainda pouco debatido. “As pessoas precisam entender que também têm o direito de criar seus próprios meios de comunicação”, afirma.
Mais do que produzir notícias, a comunicação popular busca construir pontes entre pessoas, fortalecer identidades e ampliar vozes que historicamente foram invisibilizadas. Em um cenário marcado pela desinformação e pela desigualdade, iniciativas comunitárias mostram que comunicar também pode ser um ato de transformação social.




