sábado, 22 de agosto de 2026
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Comunicação antirracista: educar, ouvir e transformar pela palavra
Entrevista 1

Comunicação antirracista: educar, ouvir e transformar pela palavra

Em uma sociedade marcada historicamente pelo racismo estrutural, a comunicação tem um papel decisivo na construção de narrativas, representações e formas de convivência. Mais do que informar, comunicar também significa disputar sentidos, questionar desigualdades e transformar realidades. É nesse contexto que ganha força a comunicação antirracista, prática que busca combater o racismo por meio da linguagem, da escuta e da valorização das vozes negras. Mestra em Comunicação pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Piauí (PPGCOM/UFPI), a jornalista e pesquisadora Ohana Luize destaca que a comunicação antirracista vai além da teoria acadêmica. Trata-se de uma prática cotidiana e política, voltada para a construção de uma sociedade menos marcada pela exclusão racial, já que o antirracismo exige posicionamento. Comunicação como prática de transformação Segundo Ohana, a comunicação antirracista é uma prática questionadora, que busca analisar criticamente discursos, imagens, narrativas e relações de poder que reforçam desigualdades raciais. Na prática, isso significa refletir sobre aquilo que se comunica, as histórias que ganham espaço e os grupos sociais que são constantemente silenciados. Em um cenário marcado pelas redes sociais digitais e pela circulação acelerada de conteúdos digitais, a responsabilidade dos comunicadores se torna ainda maior. Para Ohana, a comunicação antirracista também atua no enfrentamento das violências simbólicas presentes no cotidiano e amplia as possibilidades de representação da população negra nos meios de comunicação. Uma das características do racismo no Brasil é sua presença em comportamentos considerados “normais”. Comentários, piadas e expressões aparentemente inofensivas podem carregar preconceitos históricos e reforçar estereótipos. A pesquisadora explica que essas práticas foram naturalizadas ao longo do tempo, mas seus efeitos continuam produzindo exclusão e violência. Ela cita o filósofo Michel Foucault para lembrar que onde existe poder também existe resistência. Nesse sentido, movimentos sociais, pesquisadores e comunicadores têm contribuído para denunciar essas formas sutis de racismo e conscientizar a população. “A comunicação antirracista também é educativa. Ela chama atenção para os comportamentos cotidianos e para aquilo que muitas vezes foi tratado como normal”, ressalta. Ohana palestra no evento Favela F5. Foto: Acervo Pessoal / Ohana Luize. A linguagem nunca é neutra Outro ponto central destacado por Ohana é o papel da linguagem na manutenção das desigualdades raciais. Segundo ela, palavras, imagens e discursos carregam valores culturais e históricos. No jornalismo e na comunicação, isso significa questionar como as pessoas negras são representadas nas narrativas midiáticas. Durante muito tempo, essas representações estiveram associadas a lugares de inferioridade, violência ou exclusão. Para a pesquisadora, a comunicação antirracista rompe com a ideia de neutralidade absoluta da linguagem e propõe uma revisão crítica das estruturas discursivas. “É preciso questionar por que pessoas negras aparecem sempre associadas aos mesmos lugares e construir outras formas de comunicação”, explica. A escuta ativa aparece como um dos pilares da comunicação antirracista. Para Ohana, não basta falar sobre racismo sem colocar pessoas negras no centro do debate. Isso envolve criar espaços de fala, acolher experiências e romper com o silenciamento histórico. Mais do que fontes de entrevistas, pessoas negras devem ocupar posições de protagonismo na produção de conteúdo, no jornalismo e na educação. A pesquisadora destaca ainda que a comunicação antirracista não deve focar apenas na dor, mas também nas potencialidades, histórias e conquistas da população negra. Ao comentar sobre situações de racismo em ambientes familiares, escolares ou profissionais, Ohana afirma que o silêncio diante da discriminação também transmite uma mensagem. Segundo ela, omitir-se diante de uma fala racista pode funcionar como consentimento. Por isso, a postura antirracista exige ação e posicionamento responsável. “Hoje temos argumentos e informações suficientes para nomear o problema. Isso é racismo. Isso é violência”, afirma. Ela ressalta, no entanto, que a reação deve considerar o contexto e buscar uma abordagem pedagógica, sem deixar de interromper a naturalização da violência. Redes sociais digitais: espaço de disputa e resistência As redes sociais também são vistas como espaços importantes na luta antirracista. Embora possam reproduzir discursos de ódio e violência, elas também ampliam a visibilidade de comunicadores negros, movimentos sociais e iniciativas independentes. Segundo Ohana, a internet permitiu o fortalecimento do jornalismo independente e abriu espaço para produções que antes eram invisibilizadas. Nesse cenário, produzir conteúdo educativo, denunciar desigualdades e ampliar a representatividade negra tornam-se estratégias fundamentais de resistência. Como docente, Ohana defende que educadores têm papel essencial na construção de uma sociedade antirracista. Ela acredita que práticas pedagógicas devem incluir autores negros, metodologias inclusivas e espaços de diálogo acolhedores. Além disso, o debate sobre racismo não pode ficar restrito a datas comemorativas. “É preciso tratar a educação antirracista como prática contínua, não como pauta pontual”, afirma. A docente também destaca a importância de criar ambientes seguros para que estudantes compartilhem experiências pessoais e desenvolvam pensamento crítico, já que crianças e adolescentes podem aprender desde cedo formas de comunicação mais respeitosas e antirracistas. Para isso, é fundamental investir em representatividade, diversidade e convivência baseada no respeito às diferenças. Segundo ela, quando crianças negras veem pessoas parecidas com elas ocupando espaços de destaque, isso fortalece a autoestima, o pertencimento e o reconhecimento social. Referências para estudar comunicação antirracista Entre as referências indicadas pela pesquisadora estão obras de Djamila Ribeiro, especialmente os livros da coleção Feminismos Plurais, além do Pequeno Manual Antirracista. Ela também destaca o trabalho do Instituto Odara, do veículo Alma Preta Jornalismo, do Notícia Preta e do coletivo Nós, Mulheres da Periferia. Entre os podcasts recomendados estão Mano a Mano, apresentado por Mano Brown, além de História Preta e Afetos Podcast. Ohana palestra sobre mulheres negras.  Foto: Acervo Pessoal / Ohana Luize No Piauí, ela cita iniciativas como o Ocorre Diário e o site Negrê como exemplos importantes de comunicação comprometida com pautas antirracistas. Para quem deseja começar a praticar uma comunicação antirracista no cotidiano, Ohana resume o caminho em três atitudes principais: ouvir mais pessoas negras, observar criticamente comportamentos naturalizados e não se omitir diante do racismo. Segundo ela, o combate à discriminação racial passa necessariamente pela forma como a sociedade comunica, educa e constrói narrativas. “Não dá mais para silenciar. A comunicação antirracista existe justamente para interromper esses silêncios”

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Entre a conectividade e a desinformação: os desafios da exclusão digital no Brasil
Entrevista 2

Entre a conectividade e a desinformação: os desafios da exclusão digital no Brasil

Em um mundo cada vez mais conectado, o acesso à internet passou a ser considerado essencial para estudar, trabalhar, se informar e participar da vida social. No entanto, milhões de brasileiros ainda enfrentam obstáculos para acessar tecnologias digitais de forma plena e crítica. A exclusão digital, que envolve não apenas a falta de internet, mas também a ausência de letramento midiático e estrutura educacional, continua sendo um desafio especialmente em regiões periféricas e interioranas do país. A pesquisadora e doutora em Comunicação Marta Alencar é idealizadora da COAR Notícias (@coarnoticia), um projeto independente que trabalha com checagem de fatos e o combate a fake news. Ela também estuda Comunicação, letramento midiático e desertos de notícias. Segundo ela, a exclusão digital vai muito além da falta de conexão. Questões geográficas, econômicas e educacionais se entrelaçam e dificultam o acesso à informação de qualidade. Desigualdade digital no interior do Brasil Marta destaca que muitas comunidades quilombolas, indígenas e rurais ainda convivem com a ausência de internet e até mesmo de energia elétrica. Em diversos povoados do Nordeste brasileiro, por exemplo, famílias precisam lidar diariamente com a precariedade da infraestrutura tecnológica. Além disso, escolas de cidades pequenas frequentemente possuem laboratórios sem funcionamento adequado, computadores insuficientes ou falta de conexão com a internet. “Isso também é uma forma de exclusão digital”, afirma a pesquisadora. Para ela, a ausência de investimentos públicos em educação tecnológica contribui para ampliar desigualdades sociais já existentes. Apesar da expansão do acesso aos celulares e às redes sociais digitais, Marta reforça que conexão não é sinônimo de informação de qualidade. Segundo ela, muitas pessoas recebem conteúdos diariamente pelo WhatsApp ou pelas redes sociais digitais sem compreender completamente o que estão consumindo. “Ter internet não significa ter conexão”, diz ela. Nesse contexto, o letramento midiático torna-se fundamental. Mais do que saber utilizar um aparelho celular, é necessário desenvolver senso crítico para interpretar, verificar e questionar as informações recebidas. Inspirada nas ideias do educador Paulo Freire, Marta defende uma educação que valorize a realidade das comunidades e ajude as pessoas a compreenderem os meios de comunicação que consomem. “As pessoas precisam entender por que acessam determinadas plataformas e quais informações estão recebendo”, explica. Durante sua pesquisa em comunidades rurais de São Pedro do Piauí e Itaueira, Marta observou que muitos moradores dependiam de um único ponto de acesso à internet localizado em escolas da comunidade. Em alguns casos, os próprios moradores se organizaram para instalar conexão via fibra óptica. Mesmo assim, o acesso continuava limitado. Muitas famílias não possuíam internet em casa, e a precariedade da infraestrutura escolar dificultava o uso das tecnologias digitais de forma contínua. Marta e o cordelista Eudes Sousa. Foto: Acervo Pessoal / Marta Alencar Segundo a pesquisadora, essa realidade deixa as populações mais vulneráveis à desinformação e aos impactos da corrupção e da ausência de políticas públicas eficientes, tornando-os suscetíveis a virarem “desertos de notícias”. O que são “desertos de notícias”? Outro conceito abordado por Marta é o de “desertos de notícias”, criado pela pesquisadora norte-americana Penelope Muse Abernathy. O termo se refere a localidades que possuem pouca ou nenhuma cobertura jornalística local. Nesses lugares, a população muitas vezes depende exclusivamente de grupos de WhatsApp, páginas de humor nas redes sociais digitais ou comunicados institucionais para se informar. Isso aumenta a vulnerabilidade informacional e dificulta o acesso a notícias verificadas. Segundo Marta, mesmo em cidades classificadas como desertos de notícias, as pessoas continuam trocando informações. O problema é que nem sempre possuem ferramentas para distinguir conteúdos confiáveis de desinformação. Em muitas pequenas cidades, as redes sociais digitais se tornaram a principal fonte de informação. Entretanto, a ausência de leitura crítica da mídia pode facilitar a circulação de boatos, fake news e conteúdos manipulados. Marta cita o caso de uma página de humor em São Pedro do Piauí que, apesar de não ter caráter jornalístico, era vista pela população como principal fonte informativa da cidade. “As pessoas ficam extremamente vulneráveis quando não existe orientação sobre como checar informações”, alerta. O avanço da Inteligência Artificial (IA) e a proximidade de períodos eleitorais tornam o cenário ainda mais preocupante, já que conteúdos falsos podem circular com mais facilidade e aparência de veracidade, devido à alta propagação com os smartphones. Celular não é sinônimo de letramento midiático Para Marta, o letramento midiático envolve a compreensão das seguintes habilidades: - distinguir fontes confiáveis; - reconhecer a desinformação; e saber como verificar notícias. Tratam-se de habilidades ligadas à cidadania e à participação social. Ela diz que simplesmente saber usar um celular é diferente, por exemplo, de um verdadeiro letramento midiático. Como exemplo, Marta cita o caso de um morador da Zona Rural que utilizava o aparelho apenas para enviar áudios, pois não sabia ler, mas que, por isso teria dificuldades de entender criticamente as informações. Ela também destaca a importância do documento da UNESCO sobre alfabetização midiática e informacional, publicado em 2011, que propõe estratégias para preparar professores e alunos para lidar criticamente com as mídias digitais. Assim, a escola aparece como um espaço essencial no combate à desinformação. Segundo Marta, professores e instituições de ensino têm papel decisivo na construção do pensamento crítico dos estudantes. Marta ressalta que fake news e desinformação também circulam dentro do ambiente escolar, muitas vezes causando conflitos, cancelamentos e impactos emocionais graves entre os alunos. Por isso, ensinar práticas de checagem e estimular o diálogo são atitudes fundamentais para reduzir a propagação de informações falsas. Cordel, linguagem regional e educação midiática Uma das estratégias defendidas por Marta é o uso de linguagens populares e regionais no processo educativo. Em seus projetos, ela utiliza cordéis em áudio, texto e formato digital para aproximar o letramento midiático das comunidades. Segundo a pesquisadora, quando a informação é apresentada em uma linguagem próxima da realidade das pessoas, o aprendizado se torna mais acessível e eficiente, e algumas atitudes simples podem ajudar a reduzir a propagação da desinformação, tais como: ●      Pesquisar antes de compartilhar; ●      Verificar a origem da informação; ●      Buscar fontes confiáveis; ●      Desconfiar de conteúdos alarmistas ou “bons demais para serem verdade”; ●      Conversar com pessoas de confiança; ●      Consultar veículos jornalísticos reconhecidos. Ela também alerta para golpes digitais e ligações suspeitas que solicitam dados pessoais, prática cada vez mais comum em ambientes online. Foto: Acervo Pessoal / Marta Alencar Informação de qualidade como direito social A discussão sobre exclusão digital vai além do acesso à tecnologia. Ela envolve cidadania, educação e participação democrática. Sem acesso à informação de qualidade e sem ferramentas para interpretar criticamente os conteúdos digitais, milhões de brasileiros continuam vulneráveis à manipulação e à desinformação. Nesse cenário, iniciativas de letramento midiático, educação digital e fortalecimento do jornalismo local surgem como caminhos fundamentais para construir uma sociedade mais informada e crítica. Acesse o Manual de Checagem em Cordel aqui.

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Literatura em tempos de algoritmo: como ensinar e engajar nas redes sociais
Entrevista 3

Literatura em tempos de algoritmo: como ensinar e engajar nas redes sociais

A presença da literatura nas redes sociais digitais deixou de ser apenas uma tendência e passou a ocupar um espaço estratégico na formação de novos leitores. Em um cenário dominado por vídeos curtos, algoritmos e consumo rápido de conteúdo, produtores digitais enfrentam o desafio de transformar obras densas em materiais acessíveis, sem perder a profundidade. A criadora de conteúdo e mestra em Literatura Susy Oliveira, além de professora, também atua com comunicação literária nas redes, compartilhando estratégias e reflexões sobre esse processo. Segundo Susy, a lógica das plataformas exige adaptações constantes. Redes como Instagram priorizam vídeos curtos, o que impõe limites para abordagens mais aprofundadas. “Infelizmente, precisamos nos adaptar aos algoritmos se quisermos continuar utilizando a internet para divulgar literatura”, afirma. Como alternativa, ela sugere diversificar os canais, levando discussões mais complexas para plataformas que permitem maior duração, como YouTube e TikTok. Ainda assim, um dos principais desafios é tornar o conteúdo literário leve e atrativo. Para isso, Susy aposta na aproximação entre ficção e realidade. Ao relacionar personagens e enredos com situações do cotidiano, ela cria uma conexão mais íntima com o público. Essa estratégia estimula a curiosidade e facilita a compreensão, sem necessariamente simplificar em excesso. O uso do storytelling é visto como essencial na comunicação digital. “O ser humano adora uma boa história”, destaca Susy. Ao desenvolver uma narrativa envolvente e encontrar um estilo próprio, o criador de conteúdo consegue não apenas informar, mas também construir uma comunidade engajada, que acompanha e interage com o conteúdo. Traduzir obras complexas para formatos mais simples é uma tarefa delicada. Há sempre o risco de superficialidade, mas Susy acredita na capacidade de compreensão do público. Para ela, o caminho está no diálogo: apresentar contexto histórico, discutir autoria e explorar as mensagens da obra. “Criar um ambiente de familiaridade com o universo literário é o único caminho possível”, explica. Entretenimento e educação: um equilíbrio necessário Equilibrar conteúdo educativo e entretenimento não é uma fórmula exata. Susy destaca que o estudo contínuo é fundamental para manter a qualidade do conteúdo. Ao mesmo tempo, ela reconhece que, uma vez publicado, o material ganha múltiplas interpretações. Por isso, sua abordagem busca permanecer no campo didático, sem abrir mão da leveza. As citações literárias também ganham novos formatos nas redes. Susy utiliza trends e linguagens populares para dar destaque a autores e obras, sempre valorizando a autoria. Um exemplo é a adaptação de expressões da internet para apresentar clássicos, aproximando o público de nomes importantes da literatura de forma criativa e acessível. No ambiente digital, o visual é determinante. Conteúdos sem apelo estético tendem a se perder em meio ao excesso de informação. Por isso, Susy reforça a importância de investir em identidade visual, seja por meio de estudo próprio ou com o apoio de profissionais especializados. Susy sendo presenteada pelos alunos. Foto: Susy Oliveira / Acervo Pessoal  Por onde começar? Para quem deseja iniciar na produção de conteúdo literário, a recomendação é clara: foco e autenticidade. Em vez de abordar todos os temas, é mais eficaz escolher um nicho específico e desenvolver uma perspectiva própria. “Sempre há uma forma interessante de falar sobre qualquer assunto, mas não é necessário falar sobre tudo”, conclui. A experiência de Susy evidencia que a literatura pode não apenas sobreviver, mas também se reinventar nas redes sociais. Com estratégias adequadas, criatividade e compromisso educativo, é possível formar leitores e ampliar o acesso ao universo literário em plena era digital.

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Comunicação Popular: como o jornalismo comunitário fortalece vozes, territórios e cidadania
Entrevista 4

Comunicação Popular: como o jornalismo comunitário fortalece vozes, territórios e cidadania

Entrevista com Luan Matheus, co-fundador do projeto Ocorre Diário

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Ansiedade, comparação e excesso de informação: os desafios da saúde mental entre os jovens
Entrevista 5

Ansiedade, comparação e excesso de informação: os desafios da saúde mental entre os jovens

A juventude atual vive conectada, informada e cercada por possibilidades. Ao mesmo tempo, enfrenta níveis crescentes de ansiedade, insegurança emocional e dificuldades relacionadas à saúde mental. Em meio à pressão das redes sociais digitais, à comparação constante e às cobranças acadêmicas e profissionais, muitos jovens têm encontrado dificuldade para lidar com as próprias emoções. Para o psicólogo Tyrone Miranda, formado pela Universidade Estadual do Piauí e atuante nas áreas de Psicologia Social, Educação e Saúde, o cenário atual exige mais atenção ao bem-estar emocional das novas gerações. Além da atuação profissional com jovens no Instituto Chance, Tyrone também é autor de livros infantojuvenis publicados pela Editora Geleia Total. Segundo ele, um dos principais fatores que afetam a saúde mental dos adolescentes e jovens adultos é o excesso de informação e comparação provocado pela internet. De acordo com o psicólogo, cada geração vivencia a juventude de maneira diferente, influenciada pelo contexto histórico e social do período em que vive. Hoje, a globalização e as redes sociais digitais criam um ambiente de comparação permanente. Jovens da mesma idade, mas com realidades financeiras, familiares e sociais completamente distintas, passam a comparar seus resultados, aparência, conquistas e estilo de vida. “Essa geração enfrenta o desafio de estabelecer metas e ritmos próprios sem se comparar o tempo inteiro com os outros”, explica Tyrone. Ele destaca que o crescimento das carreiras digitais e da cultura dos influenciadores também contribui para a sensação de insuficiência, já que muitos adolescentes passam a acreditar que precisam alcançar sucesso rapidamente. Quando as mudanças emocionais merecem atenção? A adolescência é naturalmente marcada por transformações emocionais, mudanças de comportamento e construção de identidade. Porém, alguns sinais podem indicar a necessidade de maior atenção. Segundo Tyrone, alterações bruscas no padrão de comportamento são importantes sinais de alerta. Mudanças no sono, isolamento repentino, perda de interesse em atividades antes prazerosas, dificuldades na alimentação e queda no rendimento escolar podem indicar sofrimento emocional. Ele explica que é fundamental observar como o jovem costumava agir anteriormente. “Quando existe uma mudança abrupta de comportamento, isso pode indicar que algo não vai bem emocionalmente”, afirma. Tyrone também reforça que procurar um psicólogo não deve ser visto apenas como resposta a crises graves. Consultas preventivas e avaliações emocionais também são importantes formas de cuidado. Entre os sintomas mais comuns de ansiedade e depressão em jovens estão: insônia ou excesso de sono; alterações na alimentação; isolamento social; irritabilidade; dificuldade de concentração; queda no desempenho escolar; falta de motivação; cansaço constante; medo excessivo; crises de ansiedade. Segundo Tyrone, esses sinais costumam afetar diretamente a rotina do adolescente. Quando o jovem deixa de frequentar lugares que gostava, evita contato com amigos ou demonstra mudanças emocionais intensas, é importante investigar as causas sem julgamentos. O impacto das redes sociais digitais na saúde mental Para o psicólogo, o excesso de tempo nas telas pode trazer consequências emocionais importantes, especialmente durante a adolescência, período em que a identidade ainda está em formação. Nas redes sociais digitais, jovens costumam consumir recortes idealizados da vida de outras pessoas. O problema é que esses conteúdos frequentemente escondem dificuldades, inseguranças e limitações da realidade. “Muitos adolescentes passam a acreditar que aquilo que veem na internet é a vida real”, explica. Além da comparação estética e financeira, o contato excessivo com notícias violentas, conteúdos tóxicos e situações de assédio online também pode aumentar sintomas de ansiedade e insegurança. Segundo Tyrone, a escola possui papel fundamental na promoção da saúde mental. Para muitos jovens, o ambiente escolar se torna um dos poucos espaços de acolhimento emocional e escuta. Ele defende que escolas invistam em projetos de vida, planejamento de carreira e campanhas de conscientização, como Setembro Amarelo e Janeiro Branco. Além disso, professores e profissionais da educação podem ajudar identificando mudanças de comportamento e incentivando o diálogo sobre emoções. Por que alguns jovens têm medo da terapia? Apesar do aumento das discussões sobre saúde mental, muitos adolescentes ainda sentem receio de buscar ajuda psicológica. Segundo Tyrone, isso muitas vezes está ligado ao medo de julgamentos ou à sensação de que não terão espaço de fala, pois os jovens associam a terapia a cobranças familiares, especialmente quando são levados ao atendimento pelos pais e sem diálogo prévio. Por isso, ele reforça a importância de apresentar a psicoterapia como um espaço de acolhimento, escuta e construção de autonomia. Fortalecer a autoestima dos jovens passa diretamente pelo desenvolvimento do autoconhecimento. Assim, os adolescentes que compreendem melhor seus limites, desejos e possibilidades tendem a lidar melhor com frustrações e comparações. “Quando o jovem entende quem ele é e o que busca para si, ele ganha mais segurança emocional”, afirma. O psicólogo também destaca que permitir que adolescentes experimentem, errem e aprendam faz parte do processo saudável de amadurecimento. Buscar ajuda é um ato de cuidado O psicólogo deixa uma mensagem importante para jovens que enfrentam dificuldades emocionais ou têm vergonha de pedir ajuda. Segundo ele, o primeiro passo nem sempre precisa ser procurar imediatamente um profissional. Conversar com alguém de confiança, com um amigo, familiar, professor ou adulto acolhedor, já pode ser o início de uma rede de apoio. “Crescer também significa sair da zona de conforto e aprender a cuidar de si” Em um contexto de tantas cobranças e excesso de informação, discutir saúde mental de forma aberta e educativa torna-se essencial para que jovens compreendam que ansiedade, medo e tristeza não precisam ser enfrentados sozinhos.

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Como organizar o dinheiro desde cedo e evitar dívidas
Entrevista 6

Como organizar o dinheiro desde cedo e evitar dívidas

Em um cenário marcado pelo consumo rápido, pelas comparações nas redes sociais digitais e pelo fácil acesso ao crédito, cada vez mais jovens enfrentam dificuldades para administrar o próprio dinheiro. Cartão de crédito, compras parceladas, pressão social e falta de planejamento financeiro acabam se tornando fatores que contribuem para o endividamento precoce. Para entender como os jovens podem desenvolver hábitos financeiros mais saudáveis, conversamos com Saulo Henrique, economista formado pela Universidade Federal do Piauí, especialista em gestão financeira e consultor financeiro há quatro anos. Segundo ele, a educação financeira deve começar ainda na juventude, porque dois fatores são fundamentais para quem deseja construir patrimônio: tempo e consistência. Começar cedo faz diferença De acordo com Saulo, um dos maiores arrependimentos de quem começa a investir mais tarde é justamente não ter iniciado antes. “O tempo é um dos maiores aliados dos investimentos. Quanto mais cedo a pessoa começa a investir e se organizar financeiramente, maiores são as possibilidades de construir patrimônio no futuro”, explica. O economista destaca que desenvolver hábitos financeiros saudáveis ainda jovem ajuda a criar disciplina e previsibilidade, especialmente quando a pessoa começa a ganhar mais dinheiro no futuro. Muitos jovens acreditam que só vale a pena organizar as finanças quando tem uma renda alta. Porém, segundo o consultor, a organização financeira não depende apenas do valor recebido, mas principalmente da forma como o dinheiro é administrado. O primeiro passo, segundo Saulo, é registrar tudo o que entra e tudo o que sai. Hoje existem diversos aplicativos gratuitos e planilhas digitais que ajudam nesse controle. Ele recomenda que o jovem acompanhe detalhadamente seus gastos para entender para onde o dinheiro está indo. Dicas práticas para começar: Anotar todas as despesas, até as menores; Definir um limite de gastos mensal; Separar uma parte da renda para investir; Dividir os gastos por semana para facilitar o controle; Revisar mensalmente os gastos desnecessários. Um dos pontos mais abordados pelo economista é o uso consciente do cartão de crédito. Para ele, o problema não está no cartão em si, mas na falta de planejamento. ““O jovem precisa entender que não pode gastar tudo o que ganha. Mesmo recebendo pouco, é importante guardar uma parte. O cartão serve para dar fôlego financeiro, não para aumentar o seu poder de compra”, explica. Segundo Saulo, muitas dívidas surgem porque as pessoas parcelam compras sem considerar os gastos já comprometidos no mês. Para usar o cartão com responsabilidade: Saiba exatamente quanto já está comprometido na fatura; Nunca compre algo que ultrapasse sua capacidade de pagamento; Evite acumular várias parcelas ao mesmo tempo; Use o parcelamento para organização, não por impulso. Redes sociais digitais aumentam a pressão para consumir Outro desafio enfrentado pelos jovens atualmente é a pressão causada pelas redes sociais digitais, pois essas plataformas exibem viagens, roupas, carros e estilos de vida que muitas vezes não refletem a realidade financeira da maioria das pessoas. Para o economista, a comparação constante pode levar a decisões impulsivas e perigosas. “As pessoas querem viver imediatamente aquilo que veem na internet. Mas cada pessoa possui uma realidade financeira diferente”, alerta. Ele recomenda que os jovens aprendam a respeitar seu próprio momento financeiro e evitem compras feitas apenas para acompanhar tendências ou padrões sociais. Saulo também afirma que muitas dívidas poderiam ser evitadas com planejamento e paciência. Segundo ele, grandes erros financeiros costumam acontecer quando o jovem tenta assumir gastos acima do que pode pagar. Isso inclui: Financiar bens cedo demais; Assumir aluguel acima da renda; Fazer compras por impulso; Utilizar crédito sem controle. “O segredo é simples: nunca gastar mais do que ganha”, resume. Saulo reforça que educação financeira não significa deixar de viver ou abrir mão do lazer, mas aprender a consumir com consciência, levando em conta alguns hábitos importantes como: revisar constantemente os gastos, evitar compras impulsivas, comprar apenas quando houver capacidade real de pagamento e viver “um degrau abaixo” da renda recebida. Educação financeira também é qualidade de vida Para o especialista, aprender a lidar com dinheiro vai muito além de números. A educação financeira proporciona tranquilidade, segurança e autonomia para realizar sonhos no futuro. “Quem aprende a controlar o dinheiro cedo consegue construir patrimônio com mais segurança e menos sofrimento”, afirma. Ele finaliza deixando um conselho aos jovens: evitar comparações e focar na própria realidade.  “Você não precisa conquistar tudo agora. Cada pessoa tem seu tempo, sua renda e sua história. O importante é construir sua vida financeira com responsabilidade e constância.”

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Como navegar na internet com mais segurança, consciência e responsabilidade
Entrevista 7

Como navegar na internet com mais segurança, consciência e responsabilidade

Em um mundo cada vez mais conectado, saber usar a internet deixou de ser apenas uma habilidade tecnológica e passou a ser uma questão de segurança, cidadania e saúde emocional. Redes sociais, aplicativos de mensagens, compras online, bancos digitais e plataformas de estudo fazem parte da rotina de milhões de jovens brasileiros. Mas junto com as facilidades do ambiente digital também surgem riscos como golpes virtuais, invasão de contas, exposição indevida e cyberbullying. Para o especialista em segurança digital, pós-graduado em Cibersegurança, Perícia Forense e Gestão Educacional em Redes, e CEO da agência Masavio, Marcos Sávio,  a educação digital precisa ser tratada como uma necessidade urgente da sociedade atual.Grande parte da vida das pessoas está armazenada nas telas: mensagens, dados bancários, fotos, documentos e até conversas pessoais. Nesse cenário, os golpes digitais também cresceram. “Hoje as pessoas vivem conectadas o tempo todo. A educação digital surge justamente para ensinar não apenas o uso da tecnologia, mas também como funcionam os golpes, os riscos e as estratégias usadas pelos criminosos digitais”, explica. Ele destaca também que muitas pessoas ainda não receberam orientações básicas sobre segurança na internet, o que facilita a ação de criminosos virtuais. Os principais riscos que jovens enfrentam na internet A segurança digital vai além de proteger computadores. Ela também protege a privacidade, a identidade, a reputação e até a saúde emocional das pessoas. Entre os principais riscos apontados pelo especialista estão: Roubo de contas em redes sociais; Vazamento de fotos e informações pessoais; Golpes financeiros; Exposição indevida; Cyberbullying; Aplicativos falsos; Links maliciosos; Vazamento de senhas. Segundo Marcos Sávio, jovens e adolescentes acabam sendo alvos frequentes porque passam muito tempo conectados e, muitas vezes, compartilham informações sem perceber os perigos envolvidos. Um dos erros mais comuns ainda é o uso de senhas fáceis. O especialista alerta que combinações simples continuam entre as mais utilizadas no mundo. Palavras como “amor”, “Deus” ou sequências como “123456” são extremamente inseguras. Outra orientação importante é ativar a autenticação em dois fatores, recurso que adiciona uma camada extra de proteção às contas. Como identificar golpes e links suspeitos Os golpes virtuais costumam explorar emoções humanas como medo, urgência e ansiedade. Segundo Marcos Sávio, muitos criminosos se passam por gerentes de banco, empresas ou até conhecidos para convencer a vítima a agir rapidamente. Mensagens pedindo urgência, promessas “boas demais”, solicitação de senhas ou códigos, links desconhecidos, erros no endereço do site, entre outros, são alertas que você deve levar em consideração. O especialista reforça que bancos nunca pedem senha, códigos ou instalação de aplicativos por telefone. Outro ponto importante da educação digital é entender que dados pessoais possuem valor. Informações aparentemente simples podem ser usadas por criminosos para aplicar golpes. “Às vezes um dado aparentemente pequeno é justamente a informação que faltava para um criminoso completar um golpe”, alerta o especialista. Educação digital também é cidadania Para Marcos Sávio, desenvolver consciência digital é tão importante quanto aprender conteúdos tradicionais da escola. Ele acredita que o futuro exigirá cada vez mais preparo das pessoas para lidar com tecnologia, inteligência artificial, redes sociais e proteção de dados. “A internet trouxe muitos benefícios, mas também exige responsabilidade. Segurança digital não é só sobre tecnologia, é sobre comportamento, consciência e prevenção”. Segundo ele, muito golpes funcionam justamente porque as vítimas agem rapidamente sem verificar as informações. Mais do que ensinar regras técnicas, a educação digital ajuda jovens e adultos a desenvolver senso crítico, autonomia e responsabilidade no ambiente online. Em tempos de hiperconectividade, aprender a navegar com segurança se tornou uma habilidade essencial para proteger dados, emoções, relações e direitos dentro e fora da internet.

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