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Entrevista

Ansiedade, comparação e excesso de informação: os desafios da saúde mental entre os jovens

Publicado em 10 de maio de 2026ComuEduca
O psicólogo Tyrone Miranda.

O psicólogo Tyrone Miranda.

Foto: Acervo Pessoal / Tyrone Miranda

A juventude atual vive conectada, informada e cercada por possibilidades. Ao mesmo tempo, enfrenta níveis crescentes de ansiedade, insegurança emocional e dificuldades relacionadas à saúde mental. Em meio à pressão das redes sociais digitais, à comparação constante e às cobranças acadêmicas e profissionais, muitos jovens têm encontrado dificuldade para lidar com as próprias emoções.

Para o psicólogo Tyrone Miranda, formado pela Universidade Estadual do Piauí e atuante nas áreas de Psicologia Social, Educação e Saúde, o cenário atual exige mais atenção ao bem-estar emocional das novas gerações.

Além da atuação profissional com jovens no Instituto Chance, Tyrone também é autor de livros infantojuvenis publicados pela Editora Geleia Total. Segundo ele, um dos principais fatores que afetam a saúde mental dos adolescentes e jovens adultos é o excesso de informação e comparação provocado pela internet.

De acordo com o psicólogo, cada geração vivencia a juventude de maneira diferente, influenciada pelo contexto histórico e social do período em que vive. Hoje, a globalização e as redes sociais digitais criam um ambiente de comparação permanente.

Jovens da mesma idade, mas com realidades financeiras, familiares e sociais completamente distintas, passam a comparar seus resultados, aparência, conquistas e estilo de vida. “Essa geração enfrenta o desafio de estabelecer metas e ritmos próprios sem se comparar o tempo inteiro com os outros”, explica Tyrone.

Ele destaca que o crescimento das carreiras digitais e da cultura dos influenciadores também contribui para a sensação de insuficiência, já que muitos adolescentes passam a acreditar que precisam alcançar sucesso rapidamente.

Quando as mudanças emocionais merecem atenção?

A adolescência é naturalmente marcada por transformações emocionais, mudanças de comportamento e construção de identidade. Porém, alguns sinais podem indicar a necessidade de maior atenção.

Segundo Tyrone, alterações bruscas no padrão de comportamento são importantes sinais de alerta. Mudanças no sono, isolamento repentino, perda de interesse em atividades antes prazerosas, dificuldades na alimentação e queda no rendimento escolar podem indicar sofrimento emocional.

Ele explica que é fundamental observar como o jovem costumava agir anteriormente. “Quando existe uma mudança abrupta de comportamento, isso pode indicar que algo não vai bem emocionalmente”, afirma.

Tyrone também reforça que procurar um psicólogo não deve ser visto apenas como resposta a crises graves. Consultas preventivas e avaliações emocionais também são importantes formas de cuidado.

Entre os sintomas mais comuns de ansiedade e depressão em jovens estão:

  • insônia ou excesso de sono;

  • alterações na alimentação;

  • isolamento social;

  • irritabilidade;

  • dificuldade de concentração;

  • queda no desempenho escolar;

  • falta de motivação;

  • cansaço constante;

  • medo excessivo;

  • crises de ansiedade.

Segundo Tyrone, esses sinais costumam afetar diretamente a rotina do adolescente. Quando o jovem deixa de frequentar lugares que gostava, evita contato com amigos ou demonstra mudanças emocionais intensas, é importante investigar as causas sem julgamentos.

O impacto das redes sociais digitais na saúde mental

Para o psicólogo, o excesso de tempo nas telas pode trazer consequências emocionais importantes, especialmente durante a adolescência, período em que a identidade ainda está em formação.

Nas redes sociais digitais, jovens costumam consumir recortes idealizados da vida de outras pessoas. O problema é que esses conteúdos frequentemente escondem dificuldades, inseguranças e limitações da realidade. “Muitos adolescentes passam a acreditar que aquilo que veem na internet é a vida real”, explica.

Além da comparação estética e financeira, o contato excessivo com notícias violentas, conteúdos tóxicos e situações de assédio online também pode aumentar sintomas de ansiedade e insegurança.

Segundo Tyrone, a escola possui papel fundamental na promoção da saúde mental. Para muitos jovens, o ambiente escolar se torna um dos poucos espaços de acolhimento emocional e escuta. Ele defende que escolas invistam em projetos de vida, planejamento de carreira e campanhas de conscientização, como Setembro Amarelo e Janeiro Branco. Além disso, professores e profissionais da educação podem ajudar identificando mudanças de comportamento e incentivando o diálogo sobre emoções.

Por que alguns jovens têm medo da terapia?

Apesar do aumento das discussões sobre saúde mental, muitos adolescentes ainda sentem receio de buscar ajuda psicológica. Segundo Tyrone, isso muitas vezes está ligado ao medo de julgamentos ou à sensação de que não terão espaço de fala, pois os jovens associam a terapia a cobranças familiares, especialmente quando são levados ao atendimento pelos pais e sem diálogo prévio.

Por isso, ele reforça a importância de apresentar a psicoterapia como um espaço de acolhimento, escuta e construção de autonomia. Fortalecer a autoestima dos jovens passa diretamente pelo desenvolvimento do autoconhecimento. Assim, os adolescentes que compreendem melhor seus limites, desejos e possibilidades tendem a lidar melhor com frustrações e comparações.

“Quando o jovem entende quem ele é e o que busca para si, ele ganha mais segurança emocional”, afirma. O psicólogo também destaca que permitir que adolescentes experimentem, errem e aprendam faz parte do processo saudável de amadurecimento.

Buscar ajuda é um ato de cuidado

O psicólogo deixa uma mensagem importante para jovens que enfrentam dificuldades emocionais ou têm vergonha de pedir ajuda. Segundo ele, o primeiro passo nem sempre precisa ser procurar imediatamente um profissional. Conversar com alguém de confiança, com um amigo, familiar, professor ou adulto acolhedor, já pode ser o início de uma rede de apoio.

“Crescer também significa sair da zona de conforto e aprender a cuidar de si”

Em um contexto de tantas cobranças e excesso de informação, discutir saúde mental de forma aberta e educativa torna-se essencial para que jovens compreendam que ansiedade, medo e tristeza não precisam ser enfrentados sozinhos.

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